Não é que eu não quero acreditar. Ultimamente tenho desejado profundamente acreditar que existe realmente alguém cuidando de mim, de nós, e que nada é em vão. Que todos estamos aqui com uma missão, nem que ela seja morrer com 4 anos de vida devido a um câncer.
Pra quem foi criado e acreditou muito em determinada religião, é muito sério assumir que você abre mão de toda culpa confortante que lhe cercou durante anos. Que a páscoa é só chocolate e que o natal é só pra reunir a família.
Tem gente que acha que é fácil desacreditar, que é obra de "coisas ruins", mas o pior é que não é. É muito difícil se questionar internamente sobre esses assuntos. E acredito que se temos a habilidade de refletir, ela não veio a toa e muito menos emprestada de algo ruim que tenta dominar o mundo (tipo um doutor abobrinha, só que bem maltratado).
O mais difícil pra mim não é acreditar em um ser invisível capaz de ouvir todos no mundo.
Ou que pôde existir bondade humana a um extremo que só em livros podemos conhecer.
É difícil de acreditar que alguém tão bondoso possa condenar um povo a pragas bíblicas ou deixar de me aceitar porque eu cometi alguns pecados durante a vida.

É difícil de aceitar que o deus em que eu acredito invalida todos os outros credos, todas as outras religiões, que, aliás, não são religiões porque não são a minha. Que anula o ser humano que não é digno de seu amor, por simplesmente discordar de algumas coisas.
É difícil admitir que a lógica, apresentada pelos homens que escreveram um dos livros sagrados mais lidos e por outros que interpretam esses escritos, hoje ainda está correta: que alguns tipos de amor são proibidos ao invés de serem celebrados por não serem guerra, que as mulheres não tem valor nenhum ao invés de serem consideradas seres humanos, que a família só pode existir com pai e mãe ao invés de existir aonde tem amor.
Que escritos em um livro valem mais do que uma vida, do que a dignidade que as pessoas têm simplesmente por existirem e não porque fizeram sacrifícios ou temem a um ser intangível. Ser esse, o único que conhece o que vem depois da morte. Acho estranho a religião ser, principalmente, a meu ver, um jeito que encontramos de lidar com o medo da morte.
Que exista alguém ou algo superior a todos nós que permita, porque tudo é sua obra, que crianças morram de fome, que vidas sejam abandonas e que pessoas boas adoeçam e sofram em seus últimos dias o que nunca causaram a ninguém. Independentemente de qualquer justificativa karmica, não acho válido que alguma vida mereça sofrimento e não acho que nenhuma justificativa seja plausível para a dor e a tristeza.
Acho que prefiro acreditar que tudo é fatalidade da sociedade que evoluiu (des)controladamente e consequência das ações do homem. Que a fome, os desastres naturais, as doenças, de alguma forma estão ligados à (des)evolução do homem e não a uma punição ou a um castigo imposto e friamente planejado por alguém.
Prefiro acreditar que os milagres são obras dos homens. De sua inteligência e de sua fé, que não precisa ser religiosa, mas que se manifesta como força do pensamento.
Se esse é meu teste de fé, eu falhei, como diria uma amiga.
Mas se existe realmente alguma força, não acredito que eu vá ser punida simplesmente por usar dois dos dons, naturais ou criacionais, que todos temos: o pensamento e o livre arbítrio.
Só sei que não me limito a ter ou não determinada religião.
Tudo está sempre em transformação, quem dirá o meu deus.